sábado, 20 de junho de 2009

Raiva...



"Acredito que a raiva é um sentimento ilustre que poucas pessoas realmente conseguem alcançar, porque se existe o perdão e o mesmo é praticado de um modo compensatório às atitudes nobres do próximo, a magia de viver em harmonia com o seu cotidiano se torna algo sublime, logo, se você está com raiva de alguém, deixe ela "secar", não deixe perpetuar uma condição desfavorável a vocês, porque todos nós somos muito mais que um simples confronto de egos, somos todos irmãos, sobrevivendo dia a dia sobre os olhares de uma mesma nação."

Abraços, Gustavo Amariz.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Juramento de Hipócritas

Estou cansado de pessoas hipócritas. E não me refiro às pequenas hipocrisias que todos cometemos no cotidiano (como discursar a favor do meio ambiente e depois jogar papel de bala no chão), mas a toda gente que sente prazer em debochar, humilhar, reduzir e pisar nos outros, esquecendo-se de olhar para si mesma antes.

Digo isso porque a cada dia venho me desiludindo mais com as pessoas e com o mundo e pensando seriamente no que estou fazendo aqui. Se existe algum deus, ele me colocou no lugar errado (ou talvez no lugar certo, dependendo de sua intenção). Definitivamente, não é onde quero estar nem com quem quero estar (exceção feita aos meus amigos).

Confesso que, se tivesse condição e coragem, já teria ido embora há muito tempo. Vontade não me falta de sair por aí sem planos, sem rédeas, sem aviso prévio; mas não é tão simples soltar as amarras que me prendem aqui. É utopia imaginar um lugar onde as pessoas não sejam mesquinhas e falsas, mas já convivi por tempo demais com esse tipo de gente e quero, ao menos, procurar algumas em que possa encontrar um restinho de humanidade.

Digo tudo isso porque recentemente descobri mais hipocrisia em gente que eram por mim queridas do que jamais imaginei encontrar em um ser humano. Sei lá, eu devo ser muito ingênuo mesmo pra não enxergar(ou não acreditar) em tamanha falsidade, e agora que senti na pele o que, até então, só conhecia em filmes e histórias fictícias, estou repensando seriamente a minha vida. Onde foi que errei? O que fiz para merecer isso?


Não sou perfeito, obviamente, mas tenho meus valores e princípios e tento seguí-los à risca. Apesar de meus (muitos) defeitos, ao menos prezo pela honestidade, pelo bom caráter, pela solidariedade, pela simpatia e pelo respeito; não tolero fofocas e tento fazer de todas as minhas críticas algo construtivo e não ofensivo. Tenho como máxima "Se eu não posso mudar o mundo, ao menos posso fazer minha parte pra que ele não continue uma merda."

Não uso meus defeitos como pretexto íntimo para causar mal aos outros por inveja; pelo contrário, uso-os em conjunto com ela para crescer e superar(por mérito própri0) quem quer que tenha me causado inveja, sem prejudicá-lo no processo. Se vejo, por exemplo, um amigo tocando guitarra muito melhor que eu, que toco há 8 anos, não vou reduzí-lo por orgulho. Em vez disso, tentarei aprender com ele e praticar mais, para superá-lo.

Mas o que vejo, infelizmente, é a hipocrisia aliada à inveja, à ganância e, consequentemente, ao abandono dos valores humanos, tão ofuscados nos dias de hoje. A sociedade é podre, de fato, mas o que me surpreende é que ela quer permanecer na podridão e quanto mais você tenta fazer algo relevante para mudar, para tornar o mundo um pouco melhor, mais você é atacado e mal-visto pelos de alma pequena.

Não me isento, contudo, da minha parcela de culpa, afinal, não serei hipócrita de dizer que estou acima da sociedade de alguma forma e que este discurso também não se aplica a mim, mas não posso evitar de ficar, no mínimo, frustrado com a situação.

Perdoem-me se não fui claro com relação aos meus motivos. Deixarei, mais uma vez, uma música que fala por mim bem melhor do que eu jamais conseguiria expressar(clique no título para abrí-la no Youtube):

Watching the Wheels - John Lennon
(Olhando o movimento)

As pessoas dizem que eu sou louco por fazer o que faço

Bem eles me dão todos os tipos de conselhos para me salvar do fracasso
Quando eu digo que eu estou o.k, bem, eles olham para mim de um jeito estranho

Com certeza você não está feliz agora que você já não joga mais o jogo


As pessoas dizem que eu sou preguiçoso, fazendo de minha vida apenas sonhos

Bem, eles me dão todos os tipos de conselho feitos para me iluminar
Quando eu lhes falo que eu estou bem, assistindo sombras de na parede

Você não sente falta do menino daquele tempo grandioso, que você não é mais?


Eu estou apenas sentado aqui olhando as rodas girarem

Eu realmente adoro ver o movimento

Já não monto no carrossel

Apenas tive que deixar rolar

Ah, as pessoas fazem perguntas, perdidas na confusão

Bem, eu lhes digo que não há problemas, só soluções

Bem, eles balançam suas cabeças e me olham como se eu tivesse perdido a razão

Eu lhes digo que não há nenhuma pressa

Eu apenas estou sentado aqui 'fazendo hora'

Eu estou apenas sentado aqui olhando as rodas girarem

Eu realmente adoro ver o movimento

Já não monto no carrossel
Apenas tive que deixar ir

Apenas tive que deixar rolar

Eu apenas tive que deixar rolar

Abraços,

Jack Waters


quarta-feira, 17 de junho de 2009

A partida

Sei que alguns já devem estar saturados de poemas, mas meu estado de espírito hoje me conduz a isso. Gostaria de compartilhar com vocês o meu poema preferido, do autor Augusto Frederico Schmidt. Recomendo altamente que baixem esta versão em MP3 declamada por Paulo Autran (Acreditem, é MUITO linda):
http://www.sendspace.com/file/0fmz9i
A Partida


Quero morrer de noite
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Quero morrer de noite.
Irei me separando aos poucos,
Me desligando devagar.
A luz das velas envolverá meu rosto lívido.

Quero morrer de noite
As janelas abertas.
Tuas mãos chegarão aos meus lábios
Um pouco de água.
E os meus olhos beberão a luz triste dos teus olhos.
Os que virão, os que ainda não conheço,
Estarão em silêncio,
Os olhos postos em mim.

Quero morrer de noite
As janelas abertas,
Os olhos a fitar a noite infinda.

Aos poucos me verei pequenino de novo, muito pequenino.
O berço se embalará na sombra de uma sala
E na noite, medrosa, uma velha coserá um enorme boneco.
Uma luz vermelha iluminará um grande dormitório
E passos ressoarão quebrando o silêncio.
Depois na tarde fria um chapéu rolará numa estrada...

Quero morrer de noite
As janelas abertas.
Minha alma sairá para longe de tudo, para bem longe de tudo.

E quando todos souberem que já não estou mais
E que nunca mais volverei
Haverá um segundo, nos que estão
E nos que virão, de compreensão absoluta.


(Augusto Frederico Schmidt)

Abraços,

Jack Waters

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Coisas que aprendi assistindo House


Pra quem não conhece, a série "House" - que atualmente passa na rede Record e na Fox - tem sua trama ambientada em um hospital, em que a cada episódio chega um paciente com um problema diferente e é tratado pelo Dr. House (um dos melhores médicos do mundo em diagnósticos e "Sherlock Holmes" da medicina) e por seus ajudantes.

Durante o desenrolar da investigação médica para se chegar a um diagnóstico preciso, uma série de acontecimentos paralelos contribuem para enriquecer a história, geralmente causando problemas a House. Este, com seu humor ácido e sarcástico, tenta evitá-los sempre que possível.

Esta é uma das minhas séries preferidas e a recomendo a todos os que se interessam por medicina e conhecimentos gerais. Há muito o que se aprender com ela, como por exemplo:


1. Todo mundo mente.

2. Quatro testes são fundamentais para descobrir qualquer doença que você tenha: Ressonância magnética (MRI, no original), punção lombar, biópsia do tecido afetado e exame toxicológico (mesmo que seja apenas um resfriado). Ocasionalmente, você pode precisar também de uma endo/colonoscopia.

3. As principais funções das enfermeiras são carregar equipamentos de ressuscitação, atuar como recepcionistas do hospital e transitar sem rumo pelos corredores, observando os médicos.

4. Se você tiver uma convulsão no dedo mindinho do pé, pode apostar que foi devido a um fungo raríssimo dos trópicos que você pegou apertando a mão de um vizinho que esteve na África e que se alojou no seu fígado por um longo tempo, até se desprender, cair na corrente sanguínea e atacar o pâncreas, que causou uma dor de estômago, que você pensou que fosse apenas um problema de digestão e passou a tomar antiácidos, que, por sua vez, permitiram a proliferação de microorganismos dentro do estômago, que se deslocaram para o cérebro, causando uma desordem cerebral, resultando no movimento anormal do mindinho.

5. Um a cada três médicos não consegue se lembrar que infecções causam febre e que a ausência de febre é sinal de que não se trata de uma infecção, tendo que ser relembrado constantemente desse fato por seus colegas.

6. Toda medicação intravenosa causa parada cardíaca/respiratória. O mesmo vale para exames que envolvam agulhas.

7. Todos os médicos sem a orientação do House são burros e incompetentes.

8. Numa clínica, metade dos pacientes é idiota e a outra metade, hipocondríaca.

9. Na dúvida, tome antibióticos de largo espectro. Se não funcionarem, é uma doença auto-imune; Se funcionarem, aliviando os sintomas da doença inicial, vão causar danos graves em outros órgãos. Mas não se preocupe, isso é um bom sinal. Agora já se sabe o que você NÃO tinha.

10. Não há problema moral algum em fazer apostas dentro do hospital, mesmo que envolvam a vida dos pacientes.

11. Os diagnósticos mais simples, óbvios e prováveis não têm graça.

12. Está tudo bem em invadir a casa de um paciente, mexer nas suas coisas, abrir a geladeira e pegar o que quiser, desde que se tenha um diploma de medicina.

13. As roupas, acessórios e linguagem corporal de uma pessoa dizem TUDO sobre ela, incluindo sua condição de saúde.

14. Não importa onde você esteja, se você desmaiar ou sentir dores sem nenhuma razão aparente, vai acordar no Hospital Princeton-Plainsboro, aos cuidados do Dr. House.

15. Independente dos sintomas que você tiver, Não é Lúpus!

Por enquanto é só. Conforme aprender mais com a série, atualizo aqui.

* Atualizado

Abraços,

Jack Waters


domingo, 14 de junho de 2009

Um dia chuvoso

Hoje é domingo, dia de conto. Como ainda não terminei de escrever "A experiência do Dr. Marcos", publicarei um outro de minha autoria, curtinho e já finalizado. Espero que gostem.

Um dia chuvoso


Num dia frio e nublado de julho, a chuva forte cai sobre a selva de pedra,metal e asfalto, inorgânica. Acompanhada, o vento sopra gelado as folhas caídas nas calçadas que dançam aquela bela e misteriosa canção. Nas avenidas movimentadas, os automóveis vazios passam depressa, deixando para trás uma brisa barulhenta.


Refletia calmamente enquanto andava pela calçada observando o vaivém frenético e contínuo ao seu redor. Admirava, em sua caminhada, detalhes que geralmente passavam despercebidos pelas outras pessoas. Um hidrante vermelho desgastado pelo tempo, uma placa de um amarelo vivo, uma leve fumaça saindo da chaminé de uma das casas da antiga e simpática ruazinha estreita semi-abandonada, o verde das poucas árvores acinzentado pela chuva e pela fumaça dos carros. Aqui e ali, buscava uma forma diferente, uma cor mais viva. Encantava-se com as formas e cores como uma criança curiosa a explorar o mundo.


Contemplava agora as grandes imagens dos anúncios espalhados por onde passava. Um em especial chamou-lhe a atenção. Era diferente e encantador, não tinha aquele sorriso padrão da propaganda, mas apenas aquele frasco de perfume de um azul profundo, tão profundo que parecia tocar-lhe a alma.


O frio apertou-lhe, fechou seu casaco mais próximo ao corpo e apressou o passo. Era fantástica aquela sensação, a chuva caindo sobre seus ombros, o vento abraçando-a por inteiro e o corpo úmido tremendo, tentando se aquecer enquanto os olhos corriam de um lado para o outro, sempre observando, atento aos detalhes, às expressões, à arte na pedra e a arte da natureza. Buscava na realidade morta a expressão viva, tímida, abafada. O grito de dor de um poeta mudo.


Estava tomada de admiração, todos aqueles detalhes pareciam pulsar em seus olhos. Sentia-se feliz. As pessoas que passavam a seu lado pareciam estar ocupadas demais para admirar aquele espetáculo.


Acompanhava cada olhar distante, cada passo apressado e cada respiração ofegante ao seu redor.

- Desculpe, moça - disse um apressado senhor que lhe esbarrara no ombro, correndo para tomar o ônibus.


Pensava na graça da vida humana e suas contradições. Observava as pessoas na rua caminhando sem parar, sem se olharem ou falarem. Nos cruzamentos, os carros paravam ao sinal vermelho, algumas crianças famintas e esperançosas vendiam doces e faziam malabarismos, enquanto os ternos e vestidos com jóias passavam sem desviar o olhar.


Para cada pessoa que olhava, sentia que seu interior gritava desesperadamente querendo sair, como a larva que luta incansavelmente para abandonar seu casulo e experimentar a vida.


E assim continuava sua caminhada a observar as cores,as formas, pessoas e os automóveis indo e vindo...



Abraços,


Jack Waters


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Solteirão no dia dos namorados

Hoje (12/06) é um grande dia para estar solteiro. Imaginem só, nada de ter que comprar presentes que supostamente provarão como você ama determinada pessoa (numa razão diretamente proporcional ao valor do presente) em uma data puramente comercial; Nada de ter que fingir que gostou daquela roupa horrível ou do perfume caríssimo(e nauseabundo) que ele(a) lhe deu e nem correr em cima da hora para a floricultura mais próxima para comprar o presente mais clichê do mundo (e que elas, por algum motivo que nunca entenderei, continuam se derretendo ao recebê-lo).

A chave para o coração de uma mulher


Eu sei, eu sei, não parece tão romântico quando visto por este lado. Alguns poderão argumentar - e com razão - que não há nada como passar o dia dos namorados pertinho de seu(a) amado(a). Estes verão todos os motivos ruins para se estar solteiro nesta época; outros, como eu, pensarão justamente o contrário. É uma oposição justa de idéias. Quem tem alguém para compartilhar este momento não quer saber de outra coisa e quem não tem procura todos os motivos para desmerecer a data.

Verdade seja dita, todos(ou pelo menos a parcela normal da sociedade) gostam de se sentirem queridos e lembrados pelos seus, mesmo que isso só ocorra em ocasiões pré-estabelecidas por pessoas desconhecidas e com interesses duvidosos. É um tanto irônico (pra não dizer hipócrita). Demonstramos interesse especial numa determinada pessoa ou grupo de pessoas nessas datas comemorativas e as tratamos com indiferença ou com menos interesse nos outros dias do ano, como quem estampa em sua própria testa "Estou tendo essa consideração por você meramente por tradição e não porque é o que realmente sinto". E meio mundo ainda cai nessa!

É como promessas de final de ano. Quem ainda acredita nelas? Não é preciso uma mudança de calendário para se pôr em prática os planos que realmente se quer realizar e nem se muda drasticamente de uma hora pra outra, apenas porque a Terra deu mais uma voltinha ao redor do sol. Quem verdadeiramente quer mudar algo vai começar a se esforçar a partir do hoje, não do ano que vem. Da mesma forma, quem ama vai buscar demonstrar isso todos os dias, não apenas em um. Isso é romantismo de verdade!

Quem ama conquista, não despista. E conquistar é uma tarefa árdua, que não acontece do dia pra noite. Mas apesar de tudo, eu ainda admiro esse pessoal. O que posso fazer? Se estivesse no lugar deles, provavelmente seguiria pelo mesmo caminho (até porque, que namorada perdoaria um dia dos namorados sem a devida comemoração? É pedir pra ficar solteiro), mas ainda acho que tudo isso não passa de uma farsa.

Vocês e seus namoricos são chatos e eu odeio vocês.

Pronto, desabafei.

Abraços,

Jack Waters

P.S.: A parte de odiar foi brincadeira.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O que esta acontecendo na USP!

Hoje venho mostrar para vocês caros leitores, um email que eu recebi, que é um relato do que está acontecendo na USP na visão de um professor de lá. Segue o texto.

"Olá,

Interessante relato do Professor Pablo Ortellado, que estava com a gente na hora que tudo aconteceu – e nos ajudou a valer, com os feridos, detidos e para nos acalmarmos. Por favor, leiam e repassem – e chega de ficar conferindo só o espetáculo das TVs e Jornais.

Abraços – de quem não consegue dormir, dentro dessa usp sitiada por nove carros da Força Tática da Polícia Militar e 4 helicópteros sobrevoando a Moradia Estudantil (CRUSP).

Xavier.


***

Pra quem quiser saber o que está acontecendo na USP:

Urgente e importante: Tropa de Choque na USP


Prezados colegas,

O que os senhores lerão abaixo é um relato em primeira pessoa de um docente que vivenciou os atos de violência que aconteram poucas horas atrás na cidade universitária (e que seguem, no momento em que lhes escrevo – acabo de escutar a explosão de uma bomba). Peço perdão pelo uso desta lista para esse propósito, mas tenho certeza que os senhores perceberão a gravidade do caso.

Hoje, as associações de funcionários, estudantes e professores haviam deliberado por uma manifestação em frente à reitoria. A manifestação, que eu presenciei, foi completamente pacífica. Depois, as organizações de funcionários e estudantes saíram em passeata para o portão 1 para repudiar a presença da polícia do campus. Embora a Adusp não tivesse aderido a essa manifestação, eu, individualmente, a acompanhei para presenciar os fatos que, a essa altura, já se anunciavam. Os estudantes e funcionários chegaram ao portão 1 e ficaram cara a cara com os policiais militares, na altura da avenida Alvarenga. Houve as palavras de ordem usuais dos sindicatos contra a presença da polícia e xingamentos mais ou menos espontâneos por parte dos manifestantes. Estimo cerca de 1200 pessoas nesta manifestação.

Nesta altura, saí da manifestação, porque se iniciava assembléia dos docentes da USP que seria realizada no prédio da História/ Geografia. No decorrer da assembléia, chegaram relatos que a tropa de choque havia agredido os estudantes e funcionários e que se iniciava um tumulto de grandes proporções. A assembléia foi suspensa e saímos para o estacionamento e descemos as escadas que dão para a avenida Luciano Gualberto para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na altura do gramado, havia uma multidão de centenas de pessoas, a maioria estudantes correndo e a tropa de choque avançando e lançando bombas de concusão (falsamente chamadas de “efeito moral” porque soltam estilhaços e machucam bastante) e de gás lacrimogêneo. A multidão subiu correndo até o prédio da História/ Geografia, onde a assembléia havia sido interrompida e começou a chover bombas no estacionamento e entrada do prédio (mais ou menos em frente à lanchonete e entrada das rampas). Sentimos um cheiro forte de gás lacrimogêneo e dezenas de nossos colegas começaram a passar mal devido aos efeitos do gás – lembro da professora Graziela, do professor Thomás, do professor Alessandro Soares, do professor Cogiolla, do professor Jorge Machado e da professora Lizete todos com os olhos inchados e vermelhos e tontos pelo efeito do gás. A multidão de cerca de 400 ou 500 pessoas ficou acuada neste edifício cercada pela polícia e 4 helicópteros.

O clima era de pânico. Durante cerca de uma hora, pelo menos, se ouviu a explosão de bombas e o cheiro de gás invadia o prédio. Depois de uma tensão que parecia infinita, recebemos notícia que um pequeno grupo havia conseguido conversar com o chefe da tropa e persuadido de recuar. Neste momento, também, os estudantes no meio de um grande tumulto haviam conseguido fazer uma pequena assembléia de umas 200 pessoas (todas as outras dispersas e em pânico) e deliberado descer até o gramado (para fazer uma assembléia mais organizada). Neste momento, recebi notícia que meu colega Thomás Haddad havia descido até a reitoria para pedir bom senso ao chefe da tropa e foi recebido com gás de pimenta e passava muito mal. Ele estava na sede da Adusp se recuperando.

Durante a espera infinita no pátio da História, os relatos de agressões se multiplicavam. Escutei que a diretoria do Sintusp foi presa de maneira completamente arbitrária e vi vários estudantes que haviam sido espancados ou se machucado com as bombas de concusão (inclusive meu colega, professor Jorge Machado). Escutei relato de pelo menos três professores que tentaram mediar o conflito e foram agredidos. Na sede da Adusp, soube, por meio do relato de uma professora da TO que chegou cedo ao hospital que pelo menos dois estudantes e um funcionário haviam sido feridos. Dois colegas subiram lá agora há pouco (por volta das 7 e meia) e tiveram a entrada barrada – os seguranças não deixavam ninguém entrar e nenhum funcionário podia dar qualquer informação. Uma outra delegação de professores foi ao 93o DP para ver quantas pessoas haviam sido presas. A informação incompleta que recebo até agora é que dois funcionários do Sintusp foram presos – mas escutei relatos de primeira pessoa de que haveria mais presos.

A situação, agora, é de aparente tranquilidade. Há uma assembléia de professores que se reuniu novamente na História e estou indo para lá. A situação é gravíssima. Hoje me envergonho da nossa universidade ser dirigida por uma reitora que, alertada dos riscos (eu mesmo a alertei em reunião na última sexta-feira), autorizou que essa barbárie acontecesse num campus universitário. Estou cercado de colegas que estão chocados com a omissão da reitora. Na minha opinião, se a comunidade acadêmica não se mobilizar diante desses fatos gravíssimos, que atentam contra o diálogo, o bom senso e a liberdade de pensamento e ação, não sei mais.

Por favor, se acharem necessário, reenviem esse relato a quem julgarem que é conveniente.

Cordialmente,

Prof. Dr. Pablo Ortellado

Escola de Artes, Ciências e Humanidades

Universidade de São Paulo"

É isso ai pessoal, olha o ponto em que chegamos!

Romulo